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PUBLICADO 6 meses ATRÁS.

Desde o início da crise, mais de 327 mil pessoas tornaram-se MEIs

Quando a maior parte das atividades econômicas precisou fechar as portas por conta da pandemia do novo coronavírus, o estudante João Cesar Nogari, de apenas 18 anos, decidiu seguir na direção oposta e abrir o próprio negócio. E não foi o único a empreender neste momento adverso. Dados do Portal do Empreendedor revelam que o registro de novos microempreendedores individuais (MEIs) não perdeu força na quarentena, tanto que o Brasil chegou à marca de 10 milhões em meio à pandemia. Os especialistas dizem que essa tendência deve continuar devido aos impactos econômicos da covid-19. Por isso, o chamado empreendedorismo inicial tem tudo para atingir uma marca histórica no Brasil este ano, com um em cada quatro brasileiros envolvidos na abertura de um negócio.

De acordo com o Portal do Empreendedor, mais de 327 mil pessoas se formalizaram como MEI no Brasil desde o início da pandemia do novo coronavírus. O total de microempreendedores individuais passou de 9,8 milhões, na segunda quinzena de março, para 10,2 milhões no fim de maio. João Nogari virou MEI há duas semanas. E conta que decidiu empreender, mesmo diante de um cenário adverso, porque sempre quis ter um negócio e viu na quarentena uma oportunidade. “Eu comecei a faculdade de administração neste ano. Mas só tive uma semana de aula e parei por conta da pandemia. Percebi que podia aproveitar o momento para estudar design gráfico e Photoshop, uma coisa que eu gosto e faço como hobby para os amigos”, conta.

Após 30 dias focado em desenvolver a habilidade, decidiu abrir o negócio. “Já tenho três clientes fixos e fiz vários trabalhos avulsos”, revela. O novo empreendedor admite que teve um pouco de sorte na missão, porque precisou de pouco investimento e pode fazer os seus trabalhos de casa. João garante que, com vontade, estudo, dedicação e planejamento, é possível aproveitar o momento de isolamento social para pensar no que se quer para o futuro e começar um negócio.

Suporte

A vendedora de produtos de beleza Maria de Alves, 51, concorda. Tanto que decidiu formalizar o que vinha tocando de maneira informal na quarentena. Como quer continuar se dedicando ao mercado da beleza, percebeu que teria mais condições de investir no ramo sendo MEI, que oferece a possibilidade de emitir nota fiscal, abrir conta em banco, buscar crédito, fazer cursos de capacitação e contribuir para a Previdência. “Com esse suporte, o negócio pode crescer. Por isso, fiz o MEI no mês passado. Assim que as coisas reabrirem, vou providenciar as notas fiscais e a conta do banco”, diz.

Subsecretária de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas do Ministério da Economia, Antonia Tallarida acredita que o período de isolamento social ajudou a despertar a já elevada vocação empreendedora dos brasileiros. Segundo o Sebrae, 37% dos brasileiros sonham em abrir o próprio negócio, 46% veem boas oportunidades nessa ideia e 62% dizem que já têm até os conhecimentos necessários à empreitada. “Muitas pessoas decidiram se reinventar na quarentena. E o MEI traz a possibilidade de fazer isso de maneira formal, permite que a pessoa acesse vários benefícios”, diz Antonia.

Ela lembra que é possível se cadastrar no MEI sem sair de casa, basta acessar o Portal do Empreendedor e inserir os dados pessoais e as informações do negócio. “É preciso definir bem o escopo da atividade, deixando claro o modo de atuação, o público-alvo, o investimento necessário e o fluxo de renda esperado”, explica. Os “MEIs da quarentena” ainda têm o benefício de deixar para depois o pagamento da contribuição mensal do Simples. Para dar um alívio de caixa aos microempreendedores, o governo empurrou para o fim do ano o vencimento das parcelas de abril, maio e junho. O valor não passa de R$ 58,25 por mês.

A tendência de aumento do microempreendedorismo individual não deve acabar com a quarentena. Ao contrário, tem tudo para ganhar ainda mais força. Especialistas explicam que, além de despertar a vocação empreendedora de gente como João Nogari, a pandemia da covid-19 afetou negativamente a renda de milhões de famílias e empresas brasileiras, fazendo com o que desemprego disparasse no Brasil. O cenário de crise econômica e alta do desemprego favorece um outro tipo de empreendedorismo: o de necessidade.

Formalização

Mais de 1,1 milhão de postos formais de trabalho foram fechados apenas em março e abril, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Essas pessoas terão que se ocupar. “O MEI é um grande instrumento de formalização empresarial, porque ainda possibilita que essas pessoas mantenham a cobertura previdenciária”, explica o gerente de Políticas Públicas do Sebrae, Silas Santiago.

“O dado de crescimento em meio à pandemia surpreende, porque é um momento econômico adverso. Mas a tendência é de que cresça depois da quarentena por conta da necessidade, porque as pessoas terão que buscar uma nova fonte de renda”, acrescenta o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Mauro Rochlin. Ele assinala que a taxa de desemprego do Brasil pode passar dos atuais 12,6% para 15% ou 16%, levando milhões de brasileiros à busca por uma nova ocupação.

Os MEIs da quarentena

Após as crises econômicas, é normal aumentar o número de empreendedores. O Monitor Global de Empreendedorismo (GEM, na sigla em inglês) mostra que a taxa de empreendedorismo inicial, que considera os negócios formais e informais com menos de 3,5 anos, teve picos de crescimento no Brasil tanto na crise de 2008, quanto na de 2015. Na primeira, a taxa saiu de 12%, em 2008, para 15,3%, em 2009, e 17,5%, em 2010. Na última, passou de 17,2%, em 2014, para 21%, em 2015.

O GEM estima que a taxa vai saltar dos atuais 23,3% para o recorde de 25% neste ano em virtude da crise do novo coronavírus. Afinal, antes de a pandemia fechar milhares de postos de trabalho país afora, 88% dos brasileiros que queriam abrir um negócio já admitiam que uma das motivações para empreender era “ganhar a vida, já que o emprego é escasso no Brasil”. O índice era o nono maior do mundo e crescia entre as mulheres (90,8%), os negros (90%) e a faixa etária entre 35 e 54 anos (91,6%), que devem a ser os mais afetados pelo avanço do desemprego e a maior parte dos novos empreendedores brasileiros.

“Com a pandemia, houve a paralisação de muitas atividades, que levou a demissões. Muita gente ficou sem renda e, por necessidade, vai criar um negócio. Por isso, a projeção é de que um em cada quatro brasileiros estará no grupo de pessoas que tentarão abrir um negócio, seja formal, seja informal”, revela o analista do GEM no Sebrae, Marcos Bedê.

O especialista orienta, contudo, paciência e planejamento, porque parte dessas empresas que são abertas por necessidade, no ímpeto em meio a uma crise econômica, corre o risco de fechar depois de algum tempo. Como a crise da pandemia será mais forte do que as anteriores, os “MEIs da quarentena” precisam avaliar bem o seu negócio, sem metas de faturamento muito ousadas, porque a retomada será lenta.

Mortalidade

“A taxa de mortalidade dos pequenos negócios varia entre 20% e 30%. E tende a subir quando é a necessidade que puxa o aumento do empreendedorismo. Por isso, é importante identificar uma oportunidade de negócio, estudar o mercado e colocar no papel quanto deve sair e entrar de dinheiro antes de tomar a decisão”, recomenda Bedê.

O ambiente de negócio brasileiro não é favorável ao aumento do empreendedorismo, porque os brasileiros enfrentam burocracia nas políticas públicas, além de falta de apoio financeiro e um clima político-econômico instável.

Segundo o Sebrae, 52% dos microempreendedores individuais pararam de funcionar na quarentena, 89% sofreram queda de faturamento e 68% dos que buscaram empréstimos não tiveram o pedido aprovado pelos bancos. E 32% dos microempreendedores ficaram inadimplentes.

Fonte: Correio Braziliense




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