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PUBLICADO 1 mês ATRÁS.

CEB promove renegociação de dívidas com desconto até o fim do mês

Em um país onde 65,1% das famílias estão endividadas, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), e com uma baixa taxa de empregabilidade, o atraso no pagamento de serviços básicos, como água e luz, se tornou recorrente. Dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) mostram que a inadimplência nessas contas aumentou 19% neste ano, confirmando as dificuldades da população em fechar o orçamento do mês. Especialistas veem esse quadro como dramático, pois o pagamento desses serviços são os últimos a serem suspensos, antes de as famílias reduzirem a compra de comida.

“A situação não está fácil para ninguém”, diz a doméstica Neuma Maria da Conceição, 50 anos. Ela está com todas as contas de serviços básicos em atraso. “Mas nunca deixo acumular mais do que três contas, para não ter a água e a luz cortadas”, afirma. Esse jogo de cintura, contudo, não é fácil. Primeiro, atrasou as contas em um mês. Depois, foram dois. “Vou administrando, dando meu jeitinho. Mas o aperto está grande. Só não quero ficar sem água e luz”, ressalta.

Neuma ganha um salário mínimo por mês. “Infelizmente, não dá para pagar tudo. Sempre tem uma conta que fica de fora, mesmo trabalhando de domingo a domingo”, desabafa. Ela assinala, porém, que, se as tarifas de água e de luz fossem um pouco mais baratas, talvez o aperto não fosse tão grande. “Para nós, que ganhamos um salário mínimo por mês, é difícil, muito difícil. Luz e água estão caras demais”, reclama. “O pior é que não vejo perspectiva de melhora tão cedo”, emenda.

Isenção

De olho em clientes como Neuma, a Companhia Energética de Brasília (CEB) abriu um programa de renegociação de dívidas, que vai vigorar até o fim de outubro. Nos primeiros 30 dias após o lançamento da iniciativa, a empresa já havia renegociado débitos totalizando R$ 29 milhões. Segundo a CEB, as contas vencidas até 31 de dezembro de 2018 podem ser parceladas por meio do programa Recupera, sem juros e sem multa.

Aquelas que não se encaixam nesse requisito podem ser renegociadas com encargos em qualquer agência da CEB ou em postos do Na Hora. Os inadimplentes têm a opção de quitar as dívidas à vista ou pagá-las com 20% de entrada e parcelamento do restante em até 60 vezes. Quando o montante é dividido em mais de cinco parcelas, há a incidência de juros, que vão de 0,5% a 1,5% ao mês. Para o parcelamento dos débitos sem entrada ou com o primeiro pagamento inferior a 20% do total das dívidas, a companhia exige fiador.

Caso o consumidor queira pagar todas as contas em atraso de uma única vez, tem a opção de emitir as faturas diretamente no site da CEB. As contas vencidas até 2018 serão emitidas com isenção de multas e juros. O prazo, porém, para colocar as contas de luz em dia está chegando ao fim. Portanto, dizem os especialistas, é melhor se organizar para não perder a oportunidade do parcelamento. Para mais detalhes das condições para o pagamento basta acessar o site www.ceb.com.br.

Suspensão

A expectativa da empresa é grande. “É a primeira vez que abrimos um programa como esse, que desconsidera juros e multa das contas em atraso. Foi a forma que encontramos para atrair os inadimplentes”, diz o diretor Comercial da CEB Distribuição, Fabiano Cardoso. Para ele, o acúmulo de dívidas com serviços básicos tem a ver com a “crise em que o país se encontra”. “Em relação à CEB, especificamente, houve, no passado, uma redução nas suspensões de fornecimento de energia. Isso acabou estimulando os clientes a deixarem de pagar as contas em dia”, explica.

Cardoso reconhece que muita gente reclama dos valores das contas de luz e dos constantes reajustes. Mas, na sua avaliação, não têm havido aumentos significativos nas faturas. “Os reajustes anuais têm sido de poucos pontos percentuais e não justificam a atual inadimplência. A tarifa cobrada pela CEB também não é uma das mais altas, está em patamar intermediário no país”, afirma.

O executivo reconhece que a situação se agravou por causa da crise econômica que se arrasta desde 2014. O país enfrentou uma das mais pesadas recessões da história e vive o mais lento processo de recuperação de que se tem notícia. Não por acaso, os índices de desemprego assustam e a informalidade da mão de obra bate recorde. “Essa realidade se revela no atraso do pagamento pelos nossos clientes”, frisa. Para os que querem economizar, ele recomenda a “utilização consciente e sustentável da energia”.

Equilíbrio

Para Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil, não há dúvidas de que a crise econômica está por trás da dificuldade geral dos brasileiros em pagar as contas em dia. E como não há perspectiva de recuperação tão cedo, ela recomenda que os consumidores tenham muito cuidado com o orçamento doméstico e evitem fazer dívidas. Outra dica é para que todos os inadimplentes mantenham os débitos anotados para que possam ser pagos o mais rapidamente possível. Isso vale também para todo o dinheiro que entrar. É importante buscar o equilíbrio.

Sobre a oportunidade para a renegociação de dívidas, como a proposta pela CEB, Marcela acrescenta: “Muitas vezes, a pessoa vai renegociar uma dívida sem olhar o dinheiro que tem. Assim, corre o risco de assumir compromissos que não pode pagar e, consequentemente, ficar inadimplente mais de uma vez. “Isso pode ensejar o corte de serviços. Em muitos estados, quando a pessoa atrasa as contas por mais de 90 dias, pode ficar sem água e sem luz”, alerta.

A comerciante Cristiane Pereira, 42, enfrentou tal situação. Após um atraso de aproximadamente 14 meses, a dona de um quiosque teve a energia cortada e permanece assim até hoje. “Atrasei o pagamento das contas do meu comércio porque eu o aluguei em um determinado momento e a pessoa não pagou as contas”, diz. Ela pretende, contudo, quitar a dívida por meio do programa da CEB. A comerciante deve parcelar o valor em atraso em 60 vezes, o máximo permitido pela companhia.
“Pretendo voltar a usar o comércio quando eu renegociar a dívida. Vou parcelar a fatura no máximo de vezes possível, mesmo com juros mais altos. Não posso ficar sem trabalhar no quiosque, está entrando muito pouco dinheiro. Isso prejudicou muito a minha renda familiar”, acrescenta.

O servidor público Jaime David, 65, ainda não definiu se recorrerá ao programa de parcelamento de dívidas proposto pela CEB. “A minha ideia é parcelar por muitos meses. Pagar à vista, para mim, é impossível”, afirma. Ele ainda não sabe o valor total da dívida com a concessionária. “Já tem mais de 90 dias que não pago as contas, mas ainda não cortaram a energia, ainda bem”, relata. Segundo ele, a dívida foi acumulada por causa de “uma mudança ou outra” em seu salário, o que teria comprometido toda a renda familiar.

Cuidados

O educador financeiro Jônatas Bueno vê os programas de renegociação de dívidas em atraso como uma forma de o consumidor garantir o essencial em casa: água e energia. No entanto, ele alerta para alguns cuidados necessários na hora de parcelar a fatura. “Para aproveitar a renegociação, a pessoa tem que saber o quanto pode comprometer por mês com as mensalidades e, se puder, reduzir a expectativa para menos. Por exemplo, se o consumidor acha que consegue pagar R$ 300 por mês, é melhor fazer uma parcela de R$ 200, para não ter surpresas”, explica.

Na avaliação de Bueno, o parcelamento deve ser de, no máximo, 36 vezes. “No programa da CEB, especificamente, a pessoa pode parcelar em até cinco vezes sem juros. Mas, se não tiver como fazer assim, recomendo, no máximo, parcelas em até 36 vezes porque os juros são de 0,99% ao mês. Dificilmente se vai conseguir um empréstimo com essa taxa”, ressalta. Nos casos em que o inadimplente precisa parcelar em mais de 36 vezes, o especialista recomenda que a pessoa procure outras modalidades de empréstimo que ofereçam taxas de juros inferiores.

“A taxa divulgada pela CEB para até 60 vezes está em 1,5% ao mês. Mas existem vários bancos que oferecem a servidores públicos, por exemplo, uma taxa menor no crédito consignado”, diz o educador financeiro. Ele recomenda ainda que os consumidores aproveitem as renegociações para fazer uma “faxina financeira” e evitar novos atrasos. “Organize suas contas, faça uma faxina financeira, um diagnóstico para entender para onde está indo o dinheiro e um mapeamento de todas as dívidas acumuladas. Só assim terá a noção exata de sua vida financeira para equacioná-la.”

Fonte: Correio Braziliense




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